Esse texto é resultado de algumas reflexões a respeito da ação pedagógica, especialmente na escola pública. São reflexões inciais, por isso não vou entrar em maiores detalhes filosóficos e jurídicos. É apenas um olhar nascido de uma conversa sobre o trabalho.
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Nós, servidores públicos, tivemos um conjunto de atribuições e responsabilidades em Regime Júrido Único instaurados em 1990 com a Lei 8112. Mas, ao que parece, não nos foi enfatizado o verdadeiro sentido do termo "servidor público". Alessandro Eloy Braga, colega educador, já fez reflexão brilhante a esse respeito. Ele mostra que o sentido real do substantivo "servidor" foi totalmente esquecido por aqueles milhares, ou até milhões, de brasileiros que querem ingressar no serviço público, em qualquer esfera. E eu acrescento que o adjetivo "público" nunca foi assimilado em nossa cultura em seu sentido denotativo. Não foi incorporado em nossa sociedade o sentimento de coletividade, de comunhão, de conjunto. Ao contrário, disseminou-se a noção de que público é o que pertence ao governo e o governo... É algo distante, bem distante de nós. Passamos, então, a lidar com a questão do público como o que é privativo ao outro e "eu não tenho nada a ver com isso".
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Além dessa torpe visão, tornou-se um vício ser servidor público para manter-se no emprego custe o que custar. É a tal estabilidade, outra palavra muito mal interpretada por nós, que nos oferece esse privilégio. Aquilo que foi conquistado a duras penas e legalizado na 8112/90 como um benefício de categoria passou a ser um malefício público. É. A estabilidade garante ao servidor o direito de, após o estágio probatório de 3 anos, permanecer no cargo. A não ser por crimes previstos na Lei. O que vemos é que o servidor tem de fazer bastante esforço se quiser ser exonerado ou demitido. Mas bastante esforço mesmo!
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E o que isso tudo tem a ver com a ação pedagógica do professor da escola pública? TUDO! Nós, professores da escola pública, confundimos estabilidade com acomodação. Nos esquecemos de que não devemos apenas ensinar conhecimentos advindos do saber científico, ética, moral, respeito, comprometimento consigo e com o outro, mas também, e em primeiro lugar, devemos dar exemplo de tudo o que ensinamos. Nos esquecemos o verdadeiro sentido de estarmos desenvolvendo um trabalho totalmente diferenciado do de um técnico da Receita Federal ou de um agente do Detran, por exemplo. Estes também devem ter consciência do que significa servir o público. Mas a natureza da atividade que cada um desses profissionais desenvolve é infinitamente diferente da desenvolvida pelo professor.
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O fato de todos nós servidores públicos nos acomodarmos em virtude de nossa estabilidade traz muitos malefícios a nós mesmos porque temos péssimos serviços públicos: hospitais públicos, INSS, Polícias, Receita Federal, Tribunais, Detran, Procon, escolas públicas, etc. Ao ponto de termos de pagar duplamente pelos nosso direitos básicos, previstos constitucionalmente - saúde, educação, segurança, habitação - se quisermos ter o mínimo de dignidade. E quem não pode pagar?
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Este texto serve a um questionamento surgido ontem quando de uma discussão sobre trabalho e transformação social. Por meio do trabalho, transformamos/dominamos a natureza e criamos cultura. Essa também é uma das razões por sermos diferentes dos animais - eles sobrevivem e isso não transforma o meio. Então, o trabalho é uma forma de dialogarmos com nossa existência, nosso mundo, nossa natureza humana e de modificar tudo ao nosso redor. Consumismo a parte, trabalhamos não apenas para sobreviver, mas para transformar e construir o mundo. Especialmente o professor, consciente ou não do poder que tem, querendo ou não, trabalha para transformar e construir o mundo ao seu redor. Resta saber se os vícios de um cultura depreciadora do real sentido de ser servidor público já impregnaram a maioria de nós. Resta saber se temos agido muito mais como reprodutores da cultura nepotista ou como contribuidores para uma sociedade mais consciente e crítica. Resta saber se temos realmente servido o público como nos é obrigatório a partir do momento em que fomos selecionados em um concurso público ou se estamos bastante interessados em receber um salário no final do mês sem importar o que fizemos com nossa obrigação já que existe uma estabilidade que me protege de um exercício irregular da profissão. Resta saber quem realmente somos. Resta saber quem queremos ser. E resta saber quem não devemos ser.
Caroline Cardoso
29.05.2009
Texto originalmente publicado aqui
domingo, 31 de maio de 2009
Servidor público ou professor?
terça-feira, 26 de maio de 2009
VESTIBULAR PARA OS PARLAMENTARES
Há oito dias aguardo para escrever este post. Na verdade, quero compartilhar com o leitor a queda de mais um dos meus (pre)conceitos. Explico: sempre achei que muitos, para não dizer a maioria, dos programas de humor da TV brasileira são de uma má qualidade e de um mau gosto impressionantes. [Não estou defendendo os estrangeiros. Os programas de humor ingleses ou americanos são péssimos! Depois explico isso.] Também acredito que fazer comédia, e de qualidade, não é para qualquer um. Mas há um quê de apelação em muitos desses programas brasileiros, seja para o sexo, seja para a ridicularização das minorias, seja para o desprezo ao lado cítrico-sarcástico-inteligente que deve ser a essência do humor. E, obviamente, o humor deve ser contextualizado. As piadas inglesas do Mister Bean são um horror para mim. Não as entendo [nem quero entender], por isso são tão sem graça. Mas segunda-feira passada assisti, pela primeira vez, ao CQC. E, para minha surpresa, eles fazem bom humor. Gosto muito do Tas, que comanda o programa. Ele é um rapaz cult. E isso deu um ar mais jornalístico, digamos assim, ao programa. Ao menos no quadro que vi e que reproduzo ali embaixo, eles fizeram algo bastante interessante e inédito nos programas de humor: entrevistaram os políticos, no Congresso, a respeito de conhecimentos elementares para qualquer cidadão eleito para representar o povo. E, para surpresa geral, se nossos parlamentares fossem fazer um vestibular para concorrer ao cargo por meio dos próprios conhecimentos, SURPRESA! Muitos REPROVARIAM. Fiquei impressionada com as atitudes, com a falta de vergonha dos senhores deputados e senadores pela própria ignorância. Não sei o que é pior, os desvios serem cometidos por alguém tão ignorante ou... O mais legal do programa é que o Gentili, entrevistador CQC, não precisou rechaçar os nobres colegas enternados para nos fazer morrer de chorar com tanta incongruência. Os próprios parlamentares são a piada.
Analogamente, fiquei pensando na minha profissão. Tanto que nós professores brigamos e lutamos para que nossos alunos saiam cidadãos conscientes e críticos, para que as comunidades mais carentes tenham acesso a uma Educação integral e de qualidade e para que nosso país seja mais bem representado. Como as pessoas ainda conseguem se tornar massa de manobra de gente que mal sabe o valor do salário mais pago no país? Como as pessoas ainda conseguem votar nesses homens de terno vendo tanta baboseira saindo da boca deles? Como nós ainda conseguimos nos sentir REPRESENTADOS por esse bando de ignorantes? Eu só tenho um conselho, que se fosse bom, seria vendido, não dado: ESTUDEM, NOBRES PARLAMENTARES. ESTUDEM! Eu estudo e não voto em ninguém há 6 anos. E, pelo jeito, vou continuar sem votar.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Notas de uma aprendiz em construção
Sou o intervalo entre o que desejo ser
e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida...
by Álvaro de Campos
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Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.
by Wittgenstein
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É preciso ser diferente para ver diferente.
by Rubem Alves***
Em minhas mais novas reminiscências, recuperei meu amor pelo estudo e pelos livros. Se existem fadas madrinhas? Existem, sim! A minha foi responsável direta por eu gostar muito de ler. Ela era professora e dona de uma escolinha, a D. Lourdes. Me recordo vagamente dos corredores da escola dela, de brincadeiras de leituras e do primeiro livro que ela me deu de presente - a bíblia da criança. Ela plantou, regou, e minha mãe, que fique claro, sempre cultivou em mim o hábito de estudar. Não posso recuperar em minha memória algum momento em que eu não estivesse curiosa a respeito de alguma coisa. Não consigo me lembrar de minha infância sem as brincadeiras de escolinha. Não sou capaz de ver meu passado sem os livros. Desde que "me entendo por gente", eu estudo. Aprendi a ler cedo. Fui alfabetizada no SESC em meados da década de 70. Toda a minha vida escolar básica em colégio de freira foi com professores rígidos, métodos tradicionais e Educação Moral e Cívica. Eu cantava o hino do Brasil enquanto hasteavam a Bandeira, rezava antes de começar a aula e esperava ansiosamente pelo recreio. Como eu corria no recreio! Mas também adorava ficar conversando com as colegas, fazendo o dever, copiando, copiando, copiando. Como eu copiava! E treinava para manter minha letra redondinha - porque era chique! Um dos meus hobbies era acertar tudo no ditado. Mas também contava os dias para as festas juninas e as longas filas indianas. Os ensaios eram momentos de interação e também de treino da organização. Sou muito organizada, devido à educação da minha mãe e também a esses ensaios na escola. Engraçado... Lembro que eu lia muito, mas não me lembro das visitas à biblioteca da escola, nem dos meus professores do primário. Sempre achei muito engraçado eu não ter lembrança alguma deles! O primeiro livro que me marcou muito na pré-adolescência foi A droga da obediência. Acho que é porque eu já sabia dos futuros surtos de rebeldia. Fui preparada. Dos professores do segundo grau? Lembro de vários. Eles marcaram muito mais minha história. De fato, ainda sei de conceitos da física e da biologia, de letras de músicas em inglês, de todos os paradigmas verbais regulares, de fundamentos do basquete, de geometria. Lembro do carinho deles conosco, da proximidade. Parecia, em alguns momentos, colegas. É. O diretor era um horror! Grosso, estúpido, mal educado, castrador, todo o oposto do que todas as teorias pedagógicas pregam. E o gosto pela leitura foi crescendo. As amizades foram se firmando. Eu jogava basquete no time da escola. Tinha algumas paqueras. No entanto, nunca deixei o gosto pelos estudos até mesmo porque eu não podia perder a bolsa de estudos que minha mãe havia conseguido com muito esforço. No final do ensino médio eu não tinha a mínima ideia do que faria realmente. Fiz vestibular para ciência da computação, jornalismo e letras. Deu certo o caminho do magistério. Descobri a linguística na faculdade de letras, mas parece que eu já sabia que ia enveredar por esses caminhos. Quando eu tinha uns 7 anos, viajei para o interior da Bahia, onde mora meu avô paterno. Naquela época, era zona rural. Aliás, meu trânsito pela zona rural sempre foi intenso. Mas, na Bahia, percebi as variações da língua. Meus primos falavam diferente de mim. E eu pedia que repetissem mil vezes o abecedário. Do jeito deles era muito mais melódico. Na época, 25 anos atrás, eu não imaginava o que era ser cientista da língua. Hoje sei da importância dos meus antecedentes rurais para a minha formação - honestidade, humildade, respeito, integridade e fé. E também sei o significado da nossa base rural para a configuração atual do português brasileiro. Especialmente, espero que as pessoas entendam isso, de uma vez por todas, como traços culturais valiosos e os respeitem como devem ser respeitados. Sei que, na maioria das vezes, as pessoas me olham como se eu fosse uma pessoa excêntrica. E devo ser. Porque eu afirmo, digo e redigo: Eu gosto de estudar. E descobrir. Por isso continuei meu caminho nos estudos. E, enquanto vida eu tiver, quero poder aprender. Essa vida é muito curta e cheia de novidades. Há muito o que investigar. Há muito o que olhar. Gosto das provocações presentes nos livros. Tenho um prazer quase libidinoso quando consigo descobrir, aprender, ver coisa nova. A verdadeira matriz dessa máquina humana que sou é meu cérebro. E o cérebro, líder intelectual humano, supremo órgão da máquina humana, não pode parar. A ele, pai de todas as cognições, de todos os sistemas, de todas as atividades racionais e emocionais, comandante e, ao mesmo tempo, ponte do aprendizado, dou glórias. E graças. Se posso pensar, por que ficar inerte? Se posso agir, por que não (re)agir?
Caroline Cardoso
15.04.2009
Texto originalmente publicado aqui
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Cordel interativo

O texto seguinte surgiu na cabeça do colega de empreitada - João Carlos - num calor de quase 45 graus, em Teresina, durante o Gestar II. A ilustração foi retirada da internet e representa a idéia de que o professor tem de carregar sempre em sua maletinha, independentemente do nível em que trabalha, idéias fantásticas, diversificadas, criativas e saber o que fazer com essas idéias. Olha que cordel mais sensível e mais lindo!
Obrigada, João!
A
Do
João Carlos Rodrigues da Silva
No
É de
O
O
Desceu
Dizendo
E tirou da
E gritava
Vou
E pro
Se o
Dou piti,
Nesse
Vou
Uma
A perseguida tá tostando
A
O
Quero
Ah
E
A lôra
Maldizendo a
Aquela
Deu
O
A
A
domingo, 16 de novembro de 2008
Narradores de Javé

Ficha técnica
Direção: Eliane Caffé
Roteiro: Eliane Caffé, Luiz Alberto de Abreu
Duração: 100 min
Elenco: José Dumont, Nelson Xavier, Matheus Nachtergaele, Nelson Dantas, Gero Camilo
| "O povo aumenta mas não inventa" | |
| Rodado entre junho e setembro de 2001 em Gameleira da Lapa, cidade do interior da Bahia, “Narradores de Javé” conta a história de um povoado que, ao ver a iminência de ter seu vilarejo inundado pelas águas de uma represa, vê como único modo de impedir o acontecimento na transformação do local em um patrimônio da humanidade. Para isso os moradores decidem passar para o papel todas as lendas sobre a origem de Javé, e assim chamam o escrivão local Antônio Biá para escrever um livro sobre o vilarejo. Acontece que Biá tinha sido banido de Javé pela população por ter difamado praticamente toda esta através de cartas que ajudaram a salvar seu emprego nos Correios locais. Mas no desespero a população acaba dando esta oportunidade do escrivão se redimir. A partir daí, Biá passa a ir de casa em casa na região para passar para o papel as lendas guardadas nas cabeças dos moradores de Javé. O único problema é que cada morador conta uma história diferente, e sempre defendendo os interesses de seus antepassados. O filme é brilhante, ganhou os prêmios principais nos Festivais do Rio e de Recife, onde em ambos o trabalho, não menos magnífico, de José Dumont foi premiado. Dumont é a alma do longa, onde pode treinar toda sua capacidade de improvisação. Praticamente todas as marcantes falas de Biá, como “piaba de silicone”, “tapioca de exu”, “manicure de lacraia”, “pokemon de Jesus”, “omelete de cupim”, “desinteria de tinta”, “um dilúvio bovino”, “clonado de miolo de pão”, entre outras, foram criadas pelo próprio ator. Este é o segundo trabalho de Zé Dumont como a diretoraEliane Caffé, o primeiro foi em “Kenoma” (1998). O longa conta ainda com as presenças de Matheus Nachtergaele (“Cidade de Deus”), Nelson Dantas ("O que é isso companheiro?"), Gero Camilo (“Carandiru”) e Nelson Xavier (“Benjamin”), que só ajudam à abrilhantar mais “Narradores de Javé”. Ao mostrar o confronto entre o progresso e as tradições de um lugarejo, o filme ainda se preocupa em citar o problema das terras em nosso país, onde os primeiros habitantes demarcavam, por si mesmos, a extensão de suas propriedades. Resumindo, o filme é imperdível, e boa parte disso é por causa de José Dumont que, bairrismos à parte, merecia um Oscar por sua interpretação. By Lucas Salgado | |
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